Embrião de um dos mitos da história brasileira, o assassinato do governador da Paraíba (na época o cargo se chamava presidente do estado) e candidato derrotado à vice-presidência João Pessoa (1878-1930) completa 90 anos neste domingo (26). O político estava saindo de um restaurante no bairro de Santo Antônio, no Recife, quando foi morto com dois tiros no peito. Em vez de reverência, a data inspira a revisão do significado do episódio – um caso de vingança pessoal, mas que, tratado como crime político, ajudou a levar Getúlio Vargas (1882-1954) ao poder.

O crime foi o estopim da Revolução de 1930 – a chapa presidencial de Getúlio Vargas e João Pessoa havia sido derrotada em março daquele ano pelo paulista Júlio Prestes, apoiado pelo presidente Washington Luís. Também levou à derrota da última insurreição armada da República Velha, a Revolta de Princesa. Esse foi o nome dado ao levante contra Pessoa comandado pelo coronel José Pereira Lima no município de Princesa, atual Princesa Isabel (PB), distante 400 quilômetros da capital, João Pessoa.
A revolta foi o ápice do conflito político entre Pessoa e coronéis do interior. Princesa chegou a ser proclamada “território livre”, e a semiguerra civil colocou frente a frente, de fevereiro a julho, cerca de 2.000 jagunços reunidos por Pereira e 850 soldados da polícia estadual. O crime não teve motivação política, e sim vingança. O assassino, João Dantas, aliado a inimigos de Pessoa, teve a casa invadida quatro dias antes pela polícia, que buscava armas.
Os agentes não encontraram armamento, mas puseram as mãos em farta correspondência e fotos eróticas de Dantas e da amante, a professora e poeta Anayde Beiriz. Exposto ao público, o material causou escândalo, levando Beiriz ao suicídio.
“O assassinato de João Pessoa e todo o processo de investimento na construção de uma memória mitificada em torno dele legitimou ideologicamente um fato histórico que marcou o fim da chamada República Velha e o início da Era Vargas”, afirma José Luciano Queiroz Aires, historiador e professor do curso de mestrado em história da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
Ele contabilizou, em 2006, um total de 13 avenidas, 26 ruas, quatro travessas, um largo e duas praças batizados em homenagem a João Pessoa em 18 capitais. O Exército só sufocaria a revolta de Princesa depois da morte de Pessoa, mas já era tarde. O resto está nos livros didáticos: um golpe, encabeçado por Getúlio Vargas, depôs Washington Luís, acusado pela morte de Pessoa, em outubro, na chamada Revolução de 1930.
“O termo ‘revolução’ justifica-se porque ocorreu uma reconstrução do Estado nacional. E também existiu apelo popular, como mostra a morte de João Pessoa. Havia um grupo que realmente estava querendo um Brasil diferente, que não ficasse dominado por São Paulo e Minas”, afirma a historiadora Dulce Pandolfi, co-organizadora de “A República no Brasil” (2002).
Pessoa teve o corpo embalsamado e foi sepultado com honras no Rio de Janeiro. Em setembro daquele ano, os deputados paraibanos aprovaram a mudança do nome da capital, então Paraíba do Norte, para João Pessoa. Foi composto um hino em homenagem ao ex-governador, e seu nome foi dado a dezenas de logradouros em todo o país. Em 1967, a Paraíba tornou o dia 26 de julho feriado estadual.
O movimento revisionista em torno da figura de Pessoa cresceu a partir dos últimos anos do regime militar. Em 1983, Tizuka Yamasaki realizou o multipremiado longa “Parahyba mulher macho” (1983), baseado em livro do historiador paraibano José Joffily sobre Anayde Beiriz. A intenção de filmar na capital da Paraíba foi abandonada em razão da hostilidade local. “Eu fazia perguntas a um coronel, e ele não conseguia me olhar para responder”, lembra Tizuka.
O cantor, compositor e ex-vereador de João Pessoa Flávio Eduardo Maroja Ribeiro tentou levantar o debate, mas enfrentou resistência. Em 2007, publicou o livro “Parahyba 1930: A Verdade Omitida”. “Levei muita chibatada nas costas. Hoje a gente está vendo os frutos dessa história.”
No rastro do livro de Fuba, surgiram movimentos como Paraíba Capital Parahyba e Bandeira Viva (que tenta restabelecer a antiga bandeira estadual em lugar da atual, rubro-negra, com a expressão “Nego”, atribuída a Pessoa). Em 2015, os deputados extinguiram o feriado de 26 de julho.